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Previdência: solução ou prisão?

13 de junho de 2018 |

Muitas pessoas sabem que, ao conversar com gerentes de bancos, recebem como indicação de investimentos os planos de previdência privada. Vários argumentos são usados para essa indicação, mas cada vez mais pessoas estão entendendo que essa indicação só favorece os grandes bancos.

O mais bizarro é o que muitos bancos têm feito com pessoas acima de 70 anos: sugerir a previdência como um caminho de investimentos, com o argumento de evitar que o dinheiro caia em inventário e para facilitar a liquidez dos herdeiros.

Muitas vezes, sugerem este caminho retirando dinheiro de liquidez de pessoas idosas para colocar em PGBL ou VGBL, com tabela regressiva de imposto de renda, o objetivo claro é de prender o dinheiro destas pessoas e evitar o resgate.

Essa situação aconteceu com a minha própria mãe. Desde que me tornei assessor de investimentos, passei a ajudá-la com suas aplicações financeiras, distribuição do valor em aplicações em uma corretora (a XP Investimentos) e em um grande banco.

Para deixá-la tranquila, sempre mantive um valor de liquidez aplicado em uma pequena poupança e em uma LCA do Banco do Brasil, duas aplicações sem imposto de renda e que estavam disponíveis para qualquer emergência, que todos sabemos, sempre ocorrem com pessoas na idade da minha mãe (acima de 80 anos).

Estava tudo tranquilo até que em uma visita, na Páscoa de 2017, descobri, por acaso, que ela tinha sido abordada por um gerente do Banco do Brasil e que este gerente havia conseguido convencê-la a retirar dinheiro da poupança e da LCA descritas acima para aplicar em um VGBL, com tabela regressiva, com o argumento de melhorar a rentabilidade.

Ela trocou uma LCA, já com liquidez, e taxa de 84% do CDI (livre de IR), por um VGBL que tinha rentabilidade histórica de 90% do CDI. Claro que o futuro desconto do IR no resgate não foi mencionado no momento da indicação. Minha mãe, com 84 anos na época, achou que era um bom negócio e caiu na conversa desse gerente.

Depois que descobri o que houve e expliquei para a minha mãe quais eram os fatos reais sobre aquela mudança, ela ficou triste, mas, como uma pessoa na idade dela, pouco disposta a brigar.

Entrei com uma reclamação no Banco Central e fui direcionado para o Banco do Brasil. Em vez de investigarem a situação, a resposta foi: “não encontramos nenhuma procuração no banco para que eu falasse em nome da minha mãe”.

Como minha mãe não estava disposta a se incomodar, a única coisa possível foi ligar para o gerente em questão e alertá-lo, para que ele nunca mais faça algo assim. Além disso, fiz algumas mudanças na conta dela para evitar que novos episódios como esse voltassem a ocorrer.

Após um período difícil de saúde, minha mãe veio a falecer em 2018. Mais precisamente, no início de março. Depois de alguns dias, meus irmãos e eu resolvemos ver como faríamos com as aplicações que ela tinha deixado.

Como eu era o segundo titular da conta que ela mantinha no Banco do Brasil, fizemos os resgates das aplicações e conseguimos retirar os valores que tinham liquidez, antes que estas aplicações fossem bloqueadas para inventário.

Como falei no início deste texto, os bancos dizem que o resgate das previdências é simples e, como não há necessidade de inventário, podem ser distribuídos para os beneficiários rapidamente. Pensamos que o simples atestado de óbito da minha mãe seria o suficiente para darmos entrada no resgate.

A surpresa: no momento em que procuramos o Banco do Brasil para resgatar essa previdência da minha mãe, foram pedidos vários documentos, mas o mais impressionante de todos, foi a necessidade de entregarmos um comprovante de renda da minha mãe.

Se era necessário comprovar que a minha mãe tinha renda para colocar aquele dinheiro na previdência, por que esse documento não é solicitado no momento da aplicação? A resposta é simples: facilitar ao máximo a entrada do dinheiro e dificultar ao máximo a saída.

Depois de entregues todos os documentos, mais uma surpresa: o resgate só iria ocorrer após 30 dias úteis da entrega dos documentos. E o tal do argumento da liquidez rápida fica onde?

Se os herdeiros precisarem do dinheiro rapidamente, por qualquer motivo que seja, estarão ferrados. Isso que a previdência da minha mãe tinha um valor relativamente baixo; imagino o que ocorre em casos de valores altos. No caso da previdência dela, recebemos os recursos apenas no final de abril.

Pois bem, esse texto está aqui justamente para advertir as pessoas (filhos, pais, esposas, maridos) que se depararem com essas ofertas de previdência para pessoas idosas.

É muito mais simples, desde que haja confiança, manter contas conjuntas com as pessoas idosas e o máximo possível de liquidez, mesmo que a rentabilidade não seja muito alta.

É preciso deixar dinheiro para as emergências, principalmente de saúde, a que essas pessoas estão mais sujeitas. Aliando liquidez e contas conjuntas, há muita facilidade para que os resgates sejam feitos após o falecimento dessas pessoas.

Claro, desde que haja confiança entre as pessoas da família. Mas, o mais importante é não cair em conversas como essa, que utilizam uma boa ferramenta, como são as previdências privadas, para algo que só favorece os próprios bancos.

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